terça-feira, 28 de junho de 2011

Gravador de pensamentos

Elas estavam lá, absortas em suas vidas, balançavam no mesmo ritmo, como coreografias há  muito ensaiadas e as expressões...
Como eram enlatadas!
Eis que, quase por acaso, uma pequena cena lhes chama a atenção. Os que cochilavam abriam os olhos e não conseguiam mais fecha-los.
No colo de uma estranha ele estava sentado e, seriamente, contava suas histórias de pura sabedoria, no alto da espontaneidade que se tem apenas aos cinco anos.
Eu notava inerte toda aquela mobilização, enquanto a cena se desenrolava ia tecendo este texto.
Aos cinco anos todo colorido é estopim de criatividade e é possível escrever tudo!
Elas o olhavam, um sorriso sorrateiro lhes iluminavam a face, que elas não notariam. Haviam lamparinas de São João por todo vagão e aquela naturalidade fazia rir não apenas a estranha que lhe carregava.
Ouviu-se mais um apito, já era sua estação, então ele se despediu, agradeceu tanto o colo quanto os tácitos aplausos. Através dos vidros da janela, enquanto caminhava ao longo da plataforma, suas mãos acenavam para o seu público, enfim gritou: "Convida eu para empinar pipa?" Sua voz ecoou por todo trem que de um solavanco se pôs em movimento.
Outro tranco! E a pequena platéia apagou-se, o cansaço derramava-se sob suas faces absorvendo-os em seu mundo; ébrios alguns de volta à Orfeu.
Enquanto isso o fim dessa estória se entrelaçava em minhas idéias, queria escrevê-la, mas minhas mãos não acompanhariam o seu ritmo...
Por isso resolvi inventar um gravador de pensamentos!

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